FABIANO COSTA TEIXEIRA

Professor garante que redes sociais provocam mudanças culturais 

“As redes sociais estão provocando uma mudança cultural muito grande nas pessoas, inclusive modificando a forma como elas convivem umas com as outras”.  A opinião é do professor Fabiano Costa Teixeira, coordenador do Centro de Pesquisas Avançadas da PUC Minas de Poços de Caldas, com mestrado em Ciências da Computação pela Unicamp e doutorado pela USP de São Carlos/SP.

Para ele, há quem não consegue identificar ser a mesma pessoa tanto no real quanto no digital, por isto, às vezes, toma posturas muito agressivas e exageradas em uma rede social, só que na vida real ela não é deste jeito.  “Ela cria um personagem porque talvez o fato de estar ali atrás do computador lhe dê uma falsa sensação de que está intocável, que é inalcançável”, garantiu Fabiano, acrescentando que para alguns há uma preocupação muito grande de manter um retrospecto na rede social o tempo todo.  “A pessoa publica uma coisa e você não viu e não curtiu e ela acha ruim. Foi criado um mundo paralelo e a forma como as pessoas estão vivendo está muito diferenciada”, destacou.

Por outro lado, na avaliação dele, a rede social ajudou quem é introvertido a se comunicar, a se libertar, mas ao mesmo tempo surgiram coisas ruins, como os casos de pedofilia, que preocupam. Quanto aos fakes news, Fabiano explicou que sempre existiram, mas eram conhecidos como boatos e disse-me-disse.  “Os boatos antes eram passados de boca a boca e se espalhavam, mas de forma mais demorada. Hoje a velocidade de propagação é muito rápida, pelo whatsapp, por exemplo, em 5 minutos todo mundo fica sabendo”, enfatizou .

Na avaliação de Fabiano a internet tem mais parte boa do que ruim, porque permitiu a democratização da informação. “O poder da informação era de quem tinha uma concessão de rádio, de TV e de jornal impresso. Obviamente a TV sempre foi o meio de comunicação de massa com muito poder  por isto as pessoas se pegavam no tapa para ter uma concessão de TV , porque isto dava a elas o poder. E havia um envolvimento político muito grande. Uma TV tinha o poder de determinar uma eleição. Historicamente quem tinha mais tempo de TV a chance de ganhar uma eleição era muito grande, porque ele tinha mais condições de persuadir o eleitor”, informou o professor.

Ele lembrou, no entanto que, as últimas eleições presidenciais mostraram que o tempo de TV daqui para frente não vai ser o fator determinante para se vencer uma eleição. “Isto, na minha opinião, vai acabar com um monte de maracutaia que sempre foi feita para juntar partidos para se ter mais tempo de TV . Aquelas campanhas milionárias, que eram fator motivador da maioria de casos de corrupção, estão indo água abaixo. Os marqueteiros serão importante, para montarem estratégica diferentes, mas aquela forma antiga vai acabar”.

O caso da eleição recente do presidente Jair Bolsonaro, na avaliação de Fabiano, foi impar e provavelmente um monte de gente vai tentar copiar nos próximos pleitos e vai dançar e ter desilusões.  O que aconteceu, segundo ele, foi um conjunto de fatores que ajudo a virar um fator positivo.  “Primeiro existia um antagonista que era odiado pela maioria. Dai apareceu alguém que era o inimigo número um do antagonista e que conseguiu capitalizar pessoas e usou a rede social para alimentar esta turma dizendo que era o cara que ia acabar com o antagonista. Provavelmente isto abasteceu a energia nas redes sociais. Se não tivesse um momento com um elemento tão chave, em que todos queriam ele fora, talvez não houvesse esta mesma energia. Foi um conjunto de fatores que levou aquela avalanche atípica e que talvez não aconteça nas mesmas proporções novamente”, afirmou.

Ao fazer uma avaliação em sua área de atuação, o professor Fabiano destacou que tem visto um movimento muito interessante causado pelos smartphones, lançados por uma marca e que refletiu durante todo o ano de 2018. De acordo com ele, em outubro chegou-se ao patamar de 208 milhões de smartphones habilitados no país, ou seja, um para cada pessoa e que isto promoveu a inclusão digital. “Há muita gente que não usa computador, talvez nunca tenha usado , mas está usando o smartphone e o whatsaap”, garantiu, acrescentando que este foi um dos motivos que fez com que fossem  remodelados os projetos existentes na PUC/MG de Poços,  porque até um momento da história a inclusão digital era dada pelo uso do computador e notou-se que ela  agora está sendo dada, em primeira instância, pelo uso do smartphone . “É o smartphone que está fazendo com que as pessoas se conectem  ao mundo”, garantiu.

Outro avanço, segundo ele, é o fato de estarmos entrando na quarta revolução industrial, que é a substituição da força braçal e mecânica, pela da tecnologia. Esta quarta revolução está sendo pautada pela inteligência artificial, com os softwares capazes de fazer todo um processo. “Um advogado, por exemplo, consegue, através deste software, aumentar sua produtividade. Há software que faz o diagnóstico do câncer de pele com um grau de assertividade muito alto e isto está espalhando de uma forma muito rápida”, explicou.

Fabiano contou que neste processo de revolução há a empresa chamada 4.0 que tem a presença muito grande de robôs inteligentes e autônomos que são capazes de detectar um problema na linha produção, se comunicar com outros robôs e eles mesmos serem capazes de autoajustarem, sem a necessidade da presença do ser humano. “É algo que preocupa porque daqui a 20 anos como isto estará? Hoje somos capazes de produzir muita coisa sem a geração do emprego, mas nós não conseguimos inventar uma forma de como consumir sem o emprego”, destacou.

Na avaliação dele, são necessárias políticas públicas para poder ajustar o meio do caminho. “Nas décadas de 20 e 30 começaram a ser fortalecidos os sindicatos e as leis trabalhistas porque estávamos passando por um período de transformações. Acredito que neste momento teremos uma nova onda de transformações e que medidas políticas serão necessárias. Vemos duas pessoas importantes, como Bill Gates fundador da Microsoft e Mark Zuckerberg, do Facebook,  que em eventos públicos declararam que veem sim a necessidade de no futuro existir uma renda mínima”, informou Fabiano .

De acordo com ele, a tendência desta revolução é se expandir porque o mundo vai evoluir e não há como segurar o avanço da tecnologia. “É uma tsunami que foi criada e você tem duas alternativas: ficar na frente com o peito aberto e ela vai lhe atropelar ou pegar uma prancha, colocar em cima e vamos que vamos. Aqueles que não têm condições de colocar uma prancha precisam ser encaixados”, defendeu.

Dentro destes avanços, o Centro de Pesquisas Avançadas da PUC/Minas de Poços de Caldas, coordenado pelo professor Fabiano, iniciou, anos atrás, um trabalho de captação em nuvem que permitiu que não fossem necessários mais todos os aparatos tecnológicos de computação dentro de casa e das empresas para que as pessoas tivessem acesso à internet. “A nuvem é a internet e o que precisamos é estar na internet. Um exemplo, quem faz uso do Google drive não precisa ter um HD em casa para focar as suas coisas. Coloca tudo no Google drive, que está em um servidor do Google em algum lugar da internet.

 As empresas não precisam mais comprar servidores, aquelas estruturas que tínhamos gigantescas  de antigos CPD’s em que eram preciso um monte de máquinas, ar condicionado , estrutura de notebreack, acabaram”, explicou o professor, acrescentando  que hoje é  preciso ter uma fibra ótica e que os servidores estão em algum lugar na internet.

Segundo ele, isto passou a viabilizar algumas coisas interessantes e o Centro de Pesquisas Avançadas da PUC/Minas começou a observar que isto estava sendo aplicado só no meio corporativo. “Em 2009 surgiu uma ideia de que podíamos utilizar isto no meio doméstico, só com uma abordagem diferente em visão da inclusão digital”, destacou.

Na ocasião foi montado um projeto onde pessoas que não tinham computadores em casa passariam a ter, só que estes computadores não estariam nas casas delas, estariam na nuvem. Estas pessoas só precisariam ter um equipamento em casa para acessar este computador. “Como todo ano as empresas jogam fora computadores que não servem mais para aquilo que estão fazendo usamos esses equipamentos para acessar uma máquina que está na nuvem”, disse.

Foi criada uma estrutura na universidade e estes servidores passaram a ter 100 computadores virtuais, que eram pegos das empresas. Estes computadores foram colocados nas casas das pessoas, que ao abrirem-nos tocava a web senha e surgia uma tela que não estava naquele equipamento, estava na universidade. “Quando a pessoa clicava no mouse, este clique estava sendo transmitido e executado na universidade. Abria-se um menu e removia para lá. Podíamos pegar uma máquina super antiga, com pouquíssima memória, colocar na casa da pessoa e quando ela abria virava uma máquina totalmente diferente”, explicou Fabiano.

Ele contou que foi um período que houve uma grande participação da universidade e que foram montados laboratórios de informática nas escolas . “Este projetos nos deu muita felicidade porque em 2011 ele foi selecionado pelo prêmio Santander de Ciências e Inovação como o projeto mais relevante da região Sudeste. A competividade cientifica nesta região é bastante grande, tivemos grandes universidades participando como a USP, Unicamp, Uniscar e ficamos em primeiro lugar”, destacou.

Este projeto levou a outra ideia, que foi a de levar a experiência de laboratório para o aluno de educação a distância, que seria uma forma de democratizar o ensino tecnológico. Com o conhecimento conquistado pelo trabalho como as plataformas de captação de nuvem foi montado o primeiro laboratório de informática para alunos de educação em distância. “Isto foi legal porque fomos os pioneiros e até hoje somos o únicos a ter um produto como este. Tivemos casos do professor estar em Poços de Caldas como instrutor e ter aluno espalhado pelo Brasil inteiro, inclusive fora do país, assistindo on line e pedindo ajuda na hora para o professor “, concluiu.

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